Na praia sem menstruar

Texto Fernanda Allegretti / Foto Todd Marshard

SANGRAMENTO INÚTIL?

Vários estudos mostram que perto da metade das mulheres gostaria de nunca mais ouvir falar em menstruação, como fizeram Annete e Marília. E, na visão do dr. Coutinho, não há razão para sangrar todo mês se você não pretende engravidar no curto prazo. “A pílula anticoncepcional que exige intervalo foi idealizada por John Rocks, um professor católico praticante que confiava na possibilidade de o método ser aceito pela Igreja se fosse semelhante ao ciclo menstrual. Isso não aconteceu e até hoje a mulher continua respeitando o tempo de pausa, ou seja, ovulando e abortando os ovos não fertilizados. É o que chamo de miniaborto”, argumenta. Porém, muitos de seus colegas ainda hoje discordam dessa teoria. Segundo o ginecologista e obstetra paulista Alfonso Araújo Massaguer, especializado em reprodução humana, uma série de doenças tem como sintoma o sangramento irregular ou a sua ausência: “A menstruação normal é um sinal de que útero, ovários, hormônios e glândulas estão saudáveis”, diz. “Para interromper o ciclo, são administrados hormônios que comprometem o equilíbrio normal do organismo — é uma agressão à fisiologia e à natureza”, faz coro o professor-doutor em ginecologia Cláudio Basbaum, de São Paulo.

A maior parte dos especialistas indica tal suspensão apenas a quem apresenta alguma doença ginecológica (endometriose e miomatose, por exemplo) ou TPM forte, porque há efeitos colaterais. Por exemplo, em alguns casos são receitados implantes de testosterona. “Eles deixam o endométrio na espessura de uma folha de papel e têm implicações semelhantes às dos anabolizantes”, opina Rosa Maria Neme, doutora em ginecologia pela Faculdade de Medicina da USP. Além disso, o estrógeno que está presente nos anticoncepcionais comuns faz falta a longo prazo, pois ele é responsável por controlar o nível de colesterol e por reter o cálcio dentro dos ossos. Vale lembrar: nenhum dos medicamentos para cessar a menstruação é cem por cento eficaz. “Perdas sanguíneas irregulares e imprevisíveis são comuns em cerca de metade das vezes, principalmente nos primeiros 12 meses de uso”, comenta o dr. Basbaum.

Outro ponto a ser considerado antes de bater o martelo é a sua vontade de engravidar. Afinal, alguns métodos chegam a durar cinco anos. “Verdade que a mulher tem a opção de suspender a pílula, retirar o DIU ou outra forma de tratamento em qualquer tempo, mas pode demorar até um ano para a espessura do endométrio e a ovulação se normalizarem”, acrescenta a dra. Rosa Maria.

Ainda assim, muitas de nós decidem deixar de menstruar. A advogada Fabiana Moreira, de 32 anos, passou pela experiência. “Tomei pílula oral de uso contínuo por cinco meses porque tive pólipo e sangrava freqüentemente. Adorei a novidade e não sofri com efeitos colaterais”, conta. Já a empresária Romina Simões Grossi, de 32, optou por prolongar o tratamento. “Não menstruo há quatro anos por causa do risco de ter endometriose. Primeiro, aderi ao implante subcutâneo durante três anos — e o único inconveniente foi que minha pele ficou mais oleosa. Hoje uso DIU, mas às vezes ainda tenho sangramento, o que é bastante desconfortável”, admite.


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