O mercado de trabalho cada vez mais competitivo, as relações amorosas truncadas, a autocrítica nas alturas... E, na contramão disso tudo, a obrigação de estar sempre feliz. Parece até que só se dá bem hoje quem vive com um sorriso no rosto, tem animação para dar e vender, fica ligado no 220, não é mesmo? A pressão de estar constantemente feliz da vida — de preferência magra e com um bom emprego... — tem levado cada vez mais mulheres à farmácia, em busca da pílula da felicidade. Segundo dados do Ministério da Saúde, o público feminino consome 70% dos antidepressivos vendidos no país. Some-se a isso o fato de médicos de qualquer especialização (cardiologista, endocrinologista, ginecologista, pediatra...) poderem receitar a droga, e o que temos é a disseminação crescendo a risos largos. De acordo com a consultoria internacional IMS Health, de janeiro a dezembro de 2007 foram comercializadas mais de 24 milhões de unidades de antidepressivo, ante quase 17 milhões em 2003 — uma alta de 43% em quatro anos.
Segundo o psicólogo paulista Florival Scheroki, virou rotina recorrer a esse tipo de remédio como se fosse uma borracha capaz de apagar as mais variadas dificuldades. “As pessoas querem tomar a pílula para fazer uma espécie de assepsia do sofrimento”, diz o especialista. Só que, ao fugir das angústias, perdem a confiança na própria capacidade de enfrentar outros dilemas da vida. “E é preciso ficar claro: os grandes momentos de satisfação que surgem ao longo da nossa existência acontecem após confrontarmos a dor”, dispara ele.
O médico toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas de São Paulo, acrescenta que há um exagero de diagnóstico. “Crianças com problemas na escola, déficit de atenção ou hiperatividade, adolescentes problemáticos... todo mundo está sendo tratado como se tivesse depressão”, diz. E boa parte não sofre do mal, como comprovou pesquisa realizada pelos médicos da New York University, nos Estados Unidos, em 2007. Ela mostrou que, de cada quatro pessoas consideradas deprimidas, uma, na verdade, apresentava um quadro de tristeza profunda por causa de separação (incluindo morte na família), desemprego ou dificuldade financeira. O caso da vendedora Patrícia, de 26 anos, se encaixa perfeitamente nesse perfil. Muito infeliz, ela resolveu, por conta própria, experimentar o antidepressivo da irmã. “Quando tomava, eu me sentia fora da realidade. Estava desempregada, havia perdido minha mãe, e nem ligava. Nada disso importava”, lembra Ana.
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