Num Carnaval em Salvador, VERA se apaixonou por um turista argentino e contou com as muitas artimanhas do acaso para trazê-lo de vez ao Brasil e viver ao lado dele um lindo caso de amor sem fronteiras.
Dizem que o acaso é o pseudônimo que Deus usa quando não quer revelar suas obras. Então, devemos concluir: o Diego e eu nos casamos por acaso, ou melhor, porque Deus quis. É que tudo o que envolve o nosso relacionamento, do primeiro encontro ao casamento, há dois anos, foi marcado por uma série de coincidências. Sou brasileira (de Campinas, SP) e tinha, na ocasião, 38 anos. Ele, argentino (de Buenos Aires), estava com 28.A gente se conheceu em Salvador, em 2000. Tudo começou na manhã do sábado que antecede o período de Carnaval. Eu havia chegado na noite anterior à Bahia, poucas horas antes de mais dois amigos que viajaram de Brasília. Como fazíamos já havia alguns anos, ficamos hospedados na casa da Cristina, uma amiga baiana, até alugar um imóvel que comportasse todos os dez ou 15 integrantes do nosso grupo que viriam à cidade, gradativamente.
Diego e sua turma de amigos, todos argentinos, chegaram naquela manhã, vindos do Recife. Eles também precisavam encontrar um lugar para se hospedar. Deixaram a bagagem no aeroporto e seguiram até o BarraShopping para comprar o jornal do dia e ler os anúncios publicados na seção de classificados sobre locação de apartamento.
Tínhamos exatamente a mesma necessidade para acomodar nossas turmas: um apê de três dormitórios, de preferência nas imediações do Farol ou do Porto da Barra, locais que dispensam o uso de qualquer tipo de transporte para chegar às concentrações dos circuitos oficial e alternativo dos blocos e trios elétricos.
Entre as centenas de classificados, escolhemos o mesmo por puro acaso. Tinha o telefone de um agenciador de imóveis, que se prontificou a nos buscar na casa da Cristina. Eu acabara de entrar com meus amigos Giovanni e Weidman no carro do corretor quando o celular dele tocou. Era o Diego, perguntando sobre a disponibilidade de um apartamento no Porto da Barra. Para não perder nenhuma das duas oportunidades, o corretor perguntou se poderia pegar um cliente no shopping, pois gostaria de otimizar o seu trabalho levando todos os interessados de uma só vez. Assim, se um de nós não gostasse do lugar, o outro, talvez, o alugasse. E ele economizaria tempo e combustível.
Concordamos. Afinal, não custava ter mais um passageiro no veículo. Dos quatro argentinos que chegaram de Pernambuco, apenas Diego e Federico falavam português. Assim, dividiram as páginas de classificados e cada qual foi telefonando para determinados anúncios. Como foi o Diego quem ligou para o corretor que nos atendia, coube a ele verificar o apartamento em questão. Quando se aproximou do carro em que estávamos, passei para o banco traseiro para que ele se sentasse ao lado do motorista. Tinha motivo: ele é alto (tem 1,83 metro) e ficaria espremido atrás, entre os meus amigos.
O primeiro imóvel não agradou a ninguém e partimos para visitar um segundo. Se o cupido estava por lá, não nos viu naquele momento. Afinal, eram muitas as diferenças. Até na idade. Eu, dez anos mais velha (ou mayor, como dizem de forma mais educada os argentinos). Juro que não o paquerei. E creio que ele tampouco reparou muito em mim.
A conversa foi formal, como são praticamente todas as conversas entre pessoas que acabaram de se conhecer e sabem que nunca mais voltarão a se encontrar. Meus amigos e eu queríamos definir logo o imóvel para aproveitar o sabadão de sol. Precisávamos, ainda, de preferência refestelados em uma barraca da praia de Stella Maris, planejar em qual bloco desfilaríamos. Assim, aprovamos logo o segundo apartamento visitado e pedimos ao corretor que nos levasse de volta à casa da Cristina. Já com as chaves, faríamos a 'mudança' à noite, depois da praia, é claro. Aliviados por ter resolvido tudo rapidamente, nos despedimos do corretor e do Diego, desejando aos dois sucesso num eventual negócio e um bom Carnaval.
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